Uma resposta aos Desigrejados

Esta é uma visão da igreja distorcida pelo individualismo. Ela afirma que sempre que grupos cristãos se reunirem em comunhão espiritual, ali está a igreja. O mito tem aparência de verdade por basear-se num texto bíblico, citado por místicos, liberais, evangélicos e carismáticos e até pelos desigrejados: "Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles". Este é o texto de prova infalível para os defensores do cristianismo em pequenos grupos.

O versículo acha-se em Mateus 18.20, e como todos os textos possui um contexto. Como todos os contextos, este é essencial para a compreensão do significado do texto.

No contexto, o Senhor Jesus nos diz que se nosso irmão pecar contra nós, devemos procurá-lo em particular e tentarmos a reconciliação (v. 15). Se não quiser atender, pediremos a um ou dois indivíduos que nos acompanhem para que "toda palavra se estabeleça, pelo depoimento de duas ou três testemunhas" (v. 16). Se mesmo assim recusar-se a ouvir, Cristo diz então: "Dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano" (v. 17). Os dois ou três não são considerados como a igreja, que é identificada como um corpo maior, reunido localmente de modo a que lhe possam contar o acontecido e o indivíduo desviado possa dar-lhe atenção. Esta passagem particular faz uma clara distinção entre o pequeno grupo de cristãos e a igreja (local).

Além disso, o v. 20, no contexto, sugere que Jesus está no meio de duas ou três testemunhas, não para congregar-se mas para decidir a veracidade ou falsidade de declarações feitas nas tentativas de reconciliar diferenças entre crentes. Ele age mais como juiz do que como amigo e companheiro.

Este versículo muito citado não apoia então a ideia da essência da igreja concentrar-se em uns poucos crentes reunidos em fraternidade íntima.

A linguagem do Livro de Atos, onde lemos a respeito de vários pequenos grupos de cristãos, é igualmente cautelosa. Vejamos, por exemplo, a ocasião em que Paulo viajou de Filipos a Trôade com um grande grupo composto de Sópatro, Aristarco, Secundo, Gaio, Timóteo, Tíquico e Trófimo (At. 20.4), juntamente com Lucas, e provavelmente Tito.

Temos aqui um grupo destacado de cristãos que poderia muito bem ser considerado com base em uma definição casual (embora não-bíblica), como a "igreja no barco". Mas o registro mantém uma clara distinção entre os viajantes e as igrejas por ele visitadas.

Mais tarde, o mesmo grupo chega a Mileto e Paulo manda chamar em Éfeso "os presbíteros da igreja", mas no que se segue, fica perfeitamente claro que a igreja se acha em Éfeso e não na conferência dos presbíteros com Paulo e seus companheiros.

Parece existir uma distinção bíblica entre o que pode ser adequadamente descrito como uma igreja e vários outros grupos definidos ("ad hoc") de cristãos, embora todos eles possam ser crentes verdadeiros, membros da igreja universal.

Numa época em que o indivíduo com frequência sente-se perdido e insignificante, pequenos grupos de crentes podem exercer um ministério vital. As igrejas deveriam fornecer oportunidades aos membros e seus amigos para manifestações íntimas de suas lutas e vitórias pessoais.

Mas, esse é justamente o ponto. No Novo Testamento, pequenos grupos serviam às igrejas; eles não eram a igreja. Separados da vida ordenada da igreja, pequenas fraternidades íntimas no geral transformavam-se em reuniões pouco sadias de indivíduos problemáticos.

Em uma de suas cartas, o demônio-chefe de C.S.Lewis, Screwtape, dá instruções ao seu subalterno, Wormwood, sobre as vantagens dos pequenos grupos em destruir a fé possuída por um jovem convertido e fazê-lo voltar ao seu mau caminho. Todo grupo pequeno, ligado por algum interesse que os demais depreciam, diz ele, tende a desenvolver-se em uma estufa de admiração mútua. "Queremos que a Igreja permaneça pequena, não só para que menos homens possam conhecer o Inimigo, mas também para que aqueles que o façam adquiram a ansiosa intensidade e a auto-retidão defensiva de uma sociedade secreta ou panelinha" (CS. Lewis, Screwtape Letters, Macmillan, 1951, Letter seven).

Encontrei dúzias de cristãos que jamais reconheceram a obra de Satanás em seu meio.


Artigo de Pr. Rogério Nogueira

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