Lenda e Folclore dos Pregadores: O Mito do Lenço Dobrado

João registra em seu evangelho que e ele e Pedro correm até o túmulo de Jesus após terem sido informados de que o corpo de Jesus havia desaparecido. Eles investigam o túmulo e veem que o lenço que cobria a cabeça de Jesus estava enrolado num lugar à parte (cf. Jo 20.1-8).

De acordo com uma história que circula na internet e que já foi transmitida em muitas igrejas, uma antiga tradição judaica dizia que, quando uma pessoa terminava a refeição, jogava o guardanapo de lado se já tivesse terminado. No entanto, se a pessoa tivesse que sair e ainda não tivesse terminado de comer, ela dobrava cuidadosamente o guardanapo e o colocava ao lado do prato, indicando que voltaria mais tarde para terminar a refeição. Os defensores dessa história afirmam que dobrar o lenço em João 20.7 era a maneira de Jesus dizer que ele iria embora, mas que logo voltaria. Enquanto a história é emocionante, é preciso perguntar se ela é verdadeira.

Vejamos as razões que levam à conclusão de que a história nada mais é do que uma lenda urbana.

Razões Exegéticas

1. A versão King James utiliza o termo “napkin”, que é “guardanapo” em inglês. Contudo, napkin pode não ser a melhor tradução para o termo grego Sudarion. Sudarion indica um pequeno pedaço de pano que pode ser uma toalha, um guardanapo, lenço ou um pano para o rosto. Dado o contexto, ninguém estava comendo uma refeição dentro do túmulo que excluiria o termo “guardanapo”. Sudarion se encaixa melhor com a ideia de um pano que cobria a cabeça do cadáver.

2. O lenço estava enrolado e não dobrado. O termo grego Entulissw parece se encaixar melhor com a noção de enrolar. Segundo Louw e Nida, Entulissw indica a ação de “fazer com que algo tenha a forma de um rolo”. O termo também é usado em Apocalipse 6.14, onde o céu é entuliso (enrolado) como um pergaminho.

A Tradição Judaica

Não há evidências dessa tradição judaica a respeito das refeições. Na Mishnah, que é o conjunto das leis orais do judaísmo, encontramos o seguinte sobre o momento da refeição:

Estes são os pontos [de diferença] entre Beth Shammai e Beth Hillel em relação a uma refeição. Beth Shammai diz que a bênção primeiro deve ser proferida sobre o dia e depois sobre o vinho, enquanto que Beth Hillel diz que a bênção deve ser primeiro proferida sobre o vinho e depois sobre o dia.
Beth Shammai diz que a lavagem das mãos precede o enchimento do copo, enquanto que Beth Hillel diz que o enchimento do copo precede a lavagem das mãos.
Beth Shammai diz que após limpar as mãos com um guardanapo, ele deve ser colocado sobre a mesa, enquanto que Beth Hillel diz que ele deve ser colocado sobre uma almofada.
Beth Shammai diz que após a refeição o chão deve ser varrido antes de se lavar as mãos, enquanto que Beth Hillel diz que primeiro se lava as mãos e depois o chão é varrido.
Beth Shammai diz que a ordem apropriada é “luz, graça, especiarias e habdalah”, enquanto Beth Hillel diz “luz, especiarias, graça e Habdalah”.
Beth Shammai diz que a bênção sobre a luz conclui com as palavras “quem criou a luz do fogo”, enquanto que Beth Hillel diz que as palavras são “quem está criando as luzes do fogo”.

Os pontos de desacordo entre os rabinos podem ser sumariados como segue:

  • A questão do guardanapo era se ele deveria ser colocado sobre a mesa ou sobre a almofada.
  • A referência ao lugar do guardanapo era antes e durante a refeição, não depois.
  • A discussão crítica sobre o fim da refeição era se a lavagem final das mãos precedia ou sucedia a varredura do chão. Parece que não há significado para onde o guardanapo está no final da refeição. Para a escola Beth Shammai, o uso final do guardanapo seria depois que o chão fosse varrido e, portanto, não tinha nenhuma ligação com a sinalização do final da refeição. De qualquer forma, há 50% de chance de o costume seguido por Jesus e seus seguidores ser o costume da almofada e não o da mesa.
  • De qualquer forma, o Talmud e Mishnah não têm apoio óbvio do costume no qual essa história se baseia.

Conclusão

Podemos concluir então que essa história difundida sobre a importância de Jesus dobrar o lenço é, na melhor das hipóteses, não bíblica e, na pior, uma tentativa fraudulenta de fornecer um significado espiritualizado a um texto já claro. O tema “eu voltarei” é certamente verdadeiro, mas não depende de lenços dobrados. Então quais aplicações podemos tirar dessa passagem? Consideremos as três principais:

1. O corpo foi claramente ressuscitado. Algo surpreendente deve ter ocorrido para que o pano envolto na cabeça fosse colocado em um local separado dos outros lençóis. Para Jesus ter sido capaz de escapar dos panos das sepulturas sem perturbar sua forma, enquanto ao mesmo tempo enrolava o pano que envolvia sua cabeça, ilustra que Jesus experimentou um retorno à vida maior e muito diferente do que Lázaro ou qualquer outra pessoa já experimentara. Lázaro teve que ser solto das roupas que envolviam seu corpo (Jo 11.43-44). Jesus foi capaz de voltar à vida e deixar para trás as roupas sem qualquer ajuda. Notável!

2. O corpo teria que passar através dos panos com a cabeça envolvida. Os outros panos estavam no mesmo lugar e na mesma forma que tinham quando envolveram o corpo de Jesus. No entanto, aqui estava este pano de cabeça enrolado à parte, longe dos outros panos. Isso parece sugerir que o corpo de Jesus passou através dos panos com o pano de cabeça preso. Assim, se uma pessoa testemunhasse a ressurreição, é provável que a testemunha ocular visse o corpo surgindo dos panos. Ou pode ser que uma pessoa visse o corpo desaparecer com os panos afundando onde o corpo estivera com o Jesus visível em pé ao lado deles com o pano da cabeça na mão. Após a ressurreição, Jesus enrolou o pano como um pergaminho e o colocou à parte antes de sair do túmulo.

3. O evento não ocorreu às pressas. O lenço dobrado indica que a cena na tumba vazia era evidência de um processo muito calmo e ordenado, em vez de um túmulo assaltado, do qual o corpo de Jesus foi apressadamente roubado - de um túmulo selado, guardado por soldados.

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